Missão: Impossível - Protocolo Fantasma (2011) ~ CINEBULIÇÃO

DE CÁ




     O conteúdo: a importância. Vemos o que acompanha a cara que se nos apresenta. As roupas, o perfume, o saber. Tudo certo, ok. Ninguém - ou poucas pessoas - gosta de lidar com uma palmeira ou uma porta em forma de gente. Mas um cuidado urge: não fazer das exigências conteudistas algo sem o qual não se tem nem a palavra, o ouvir, o render-se ao inesperado. Não há nada pior do que o desprezo. De cá, do meu quarto em Arles, penso em cosias que me incomodam. Essa, é uma delas. Entendam como quiser.

DE SI OU OUTROS EUS

          Estar perdido é tatear às cegas pela Metrópole, e isso fazemos todos os dias. Ninguém nunca se achou completamente. O nosso meio não nos permite isso. Nós não nos permitimos. Parece uma maldição, mas o ser humano está condenado à dúvida eterna sobre si mesmo, e infelizmente, às frustrações de não poder lidar tranquilamente com o pouco que conhece. Por isso mesmo, todos estão perdidos em si, todos estão perdidos no mundo. A centelha de alegria e confiança vem quando agarramos uma oportunidade ou pegamos na mão de alguém. Não é eterno, não sara todas as feridas, mas é confortante. Até que o encanto se quebra e tudo volta à estaca zero. Nem nisso conseguimos nos firmar. A sede do novo, mesmo para os mais pacatos seres é um motor-pulsão que garante a vida. Do contrário, não nos aventuraríamos. Penso que é justamente o fato de não saber muito sobre as coisas que nos impulsiona para o Mar Aberto. E lá estamos nós, perdidos, no mundo perdido, no espaço perdido, à procura de emoções e tranquilidade desconhecidas. Quando será diferente?

A PERA SEM EIRA NEM BEIRA

Um conto infantil de
Kaio Otto Woogman e Luiz Santiago 
        

          Não procure no mapa e nem pergunte a seus pais onde fica a Terra Azul. Já não existe mais a Terra Azul. Onde um dia estivera este fantástico lugar, havia ontem um grande buraco roxo, povoado por almas feias e tristes. Mas nem sempre fora assim. Quando os dinossauros comiam tudo o que havia na Terra, havia na Terra Azul uma linda e gigantesca plantação de peras. Era a mais bela e cheirosa plantação de peras que o Ser Supremo já fizera aparecer. Não se podia contar os grandes exemplares das frutas que ali moravam, todas muito bem acomodadas. Suas raízes confortavelmente fixas na terra, faziam-na felizes, e durante muito tempo, naquela plantação viva (imagine uma pera gigante sorrindo e acenando para você), não se ouviu reclamação alguma.
          Pera Pereira tinha apenas oito anos de terra. Suas folhinhas verdes cintilavam o orvalho da manhã, e sua cor quase branca, de tão verde, se perdia entre as muitas pintinhas marrons que lhe malhavam a casca.

          _ Como eu detesto esse lugar! - Reclamava Pera Pereira para os amigos da Escola Estadual Fazenda Estufa Feliz. - Eu queria sair dessa Fazenda, ir para o outro lado da Terra Azul, ver os monstros do mar, os pássaros de asas roxas e os tigres de dente de sabre...

          Pera Prada, sua namoradinha, choramingava:

          _ Mas você não pode ir para além da Terra Azul! Aqui temos tudo o que precisamos. E estamos salvos de todos os monstros que possam nos fazer mal. Aqui, estamos seguros, Pera Pereira.

          _ Você tem medo de grandes aventuras – respondeu Pera Pereira, as folhas do caule sacudindo-se em um acesso de raiva vegetal – Não posso entender como alguém pode ter medo de algo que nunca viu!

          Todos os alunos da Escola Estadual Fazenda Estufa Feliz olharam Pera Pereira, como se ele, algum dia, houvesse visto um monstro do mar ou um pássaro de asas roxas.

         _ O que vocês estão olhando? - Disse ele irritado, as raízes agitando-se nervosamente – Parece que eu sou o único que percebe o quanto nós somos...

          Sabe, crianças, nenhum adulto conta a verdade sobre tudo. Não sabemos ao certo o motivo, mas eles acabam escondendo coisas que nos ajudaria muito a entender essa bagunça toda que é o mundo. Uma das grandes não-verdades é sobre a criação do mundo. Na verdade, o Ser Supremo criou tudo isso aqui em três dias, mas descansou apenas no oitavo. O tempo que sobre nesse espaço todo, foi preenchido com a criação da Terra Azul. Ele (quero dizer, o Ser Supremo), pensou pensou em tudo o que habitaria aquela terra, que tipo de sorvete teria, quem seriam os professores das escolas, quem vigiaria a grande plantação de peras. Como podem ver, deu mais trabalho que inventar todos os tipos de bichos e plantas. Na Terra Azul, tudo era verde e verdejava sob um lindo céu vermelho que enfeitava a atmosfera prateada ao redor. Um riozinho azul marinho corri mansinho pelos espinhos das rosas. Todo o conforto necessário para uma simples pera ali estava: boa água, terra fértil e farta, cores largas. A Terra Azul era o Paraíso. Talvez por isso foi preciso cercá-la. Para proteger da invasão de quem, não se sabe. Algumas peras, no início da empreitada, insatisfeitas com nada, resolveram fugir, descobrir os mundos para além da Terra Azul. Conta-se na Fazenda Estuda Feliz, que elas nunca mais voltaram. O medo do Ser Supremo era que todas as frutas se aventurasse, e, muito, muito rápido, desaparecessem no espaço grande que existia além do grandioso portão da propriedade.

          Mas, naquela tarde vermelha, na Terra Azul, os amigos de Pera Pereira presenciaram a primeira partida de um coleguinha para o Mundo Pardo, o lugar para onde vão as peras sem eira nem beira.

         Quando Pera Pereira disse (lembre-se que ele estava irritado, e agitava as raízes nervosamente) “O que vocês estão olhando? Parece que eu sou o único que percebe o quanto nós somos...” ele simplesmente desapareceu. Nem raiz, nem caule, nem cor. Nada. Apenas ouviu-se uma potente voz, que vinha de algum lugar da macieira-selvagem:

          _ Não repitam o erro de vosso amigo. Sejam felizes dentro da cerca. Não há nada lá fora.
          Mas é que não dava mais para ser feliz dentro da cerca. Não demorou muito, algumas peras começaram a desaparecer. Nas horas seguintes ao sumiço de Pera Pereira, alguns Perafessores também desapareceram. E desapareceu o rio. E mais peras desapareceram, e mais peras, e a roseira, e os espinheiros...

          Não se sabe quem começou a rebeldia,mas foi o fim da Terra Azul em poucos dias. Dizem que foi uma certa pera sem eira nem beira quem enfureceu o dono da feira, da plantação distinta. O que podemos supor que aconteceu, vem de uma pintura perrestre encontrada na Caverna da Fazenda Estufa Feliz. Ali, em vivo verde, vê-se um tigre de dente de sabre devorando um pássaro de asas roxas, à beira de um lago vivaz. Acredita-se que os caracteres escritos ao pé da pintura queiram dizer: Pera Pereira.

          Ontem, a Terra Azul era um vácuo cheio de vazio de lágrimas. Ela desapareceu tanto, que fez desaparecer a invisível fronteira que tinha como Mundo Pardo.

          Hoje, em tudo ao redor, há um grande buraco roxo habitado por muitas almas feias e tristes.

UMA HISTÓRIA DE ERI-VON

     Um "pesadelo urbano cotidiano" de
Luciano Portela, Luiz Santiago e Kaio Otto Woogman

         Já era madrugada. O carpete do quarto de hotel barato era de cor vinho, um tanto gasto pelo tempo, revestido de manchas e resquícios de fluídos sexuais anteriores que também decoravam o chão e os poucos móveis que adornavam o espaço. O único som que vibrava no ambiente vinha da TV, que passava sucessivas cenas de um filme pornô. A cama estava bagunçada. Os lençóis finos e baratos possuíam um tom encardido, suas cores encontravam-se sem vida assim como Eri-Von, que buscava abrigo neles.
Seu choro era silencioso, não conseguia sequer balbuciar palavras se é que elas tinham alguma importância nessa situação. Seus pensamentos entrecortavam com os constantes gemidos do filme pornô, algo como “OOOOOOOOOOOOOHHHHHHHHHHHSSSSSSS” e “AAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHSSSSSSSSS” intercalados com “YEEEEEEEAAAAAAAAAAAHHHHHHHH” já faziam parte do seu inconsciente. Não queria estar mais ali. Aquele local inóspito lhe fazia lembrar de coisas mais que desagradáveis, não sabia como conseguira aguentar tamanho desconforto, humilhação, nojo. Era como se o mundo caísse em suas costas e, na pior das hipóteses, a plateia da vida esperava para agradecer com os seus respectivos aplausos. O choro continuava, o travesseiro encontrava-se entre as pernas, a sensação de revolta era evidente, mas não existia força alguma para que isso saísse de dentro... Não mais...
As vestimentas estavam todas jogadas no box do banheiro, amontoadas e cheirando mal. Marcas de sangue eram visíveis. Marcas do seu trauma. Ao lado, uma pequena navalha com um borrifo de sangue turvo. Jogada perto do ralo a navalha adquiria uma beleza sutil pelo contraste entre o piso de cor branca e o seu cabo preto, já a parte prateada ganhava brilho cada vez que a luz era acesa. Do lado dela encontrava-se um pequeno papel com uma frase escrita.
          Eri-Von tomou coragem e levantou-se da cama, os sons de gemidos do filme já não faziam mais sentido, era como se nem os ouvisse mais. Lentamente, colocou os pequenos calçados e, a passos lentos, caminhou até o banheiro. Num breve lapso, barulhos lhe tiraram a atenção do chão do box. Do seu lado esquerdo perambulava uma pequena barata que, talvez se percebendo observada, correu em direção à cama, escondendo-se completamente.
          Para Eri-Von, cada passo era como uma tortura. Sentia dores pelo corpo, dores que não se comparavam às dores morais que sentia há tempo, que pouco a pouco lhe iam corroendo por dentro, como um câncer. Os passos já não eram mais firmes, tropeçava... Olhou com desinteresse para o lado esquerdo, talvez procurando a toca do coelho de Alice... Mas não a encontrara. Viu apenas o mesmo carpete banhado com esperma escuro e seco de outros dias. Os passos já estavam mais que cambaleantes, o canal pornô saíra do ar. Na tela da TV, apenas o seu sinal incômodo. Eri-Von caiu no box como uma criança débil e frágil que se acaricia, como quem procura proteção.
          Já no chão, Eri-Von observa o pequeno papel ao lado da navalha com sangue, os olhos apreensivos resolvem pegá-lo. Estava um pouco amassado, rasgado nos cantos como se alguém o tivesse pegado para fazer uma anotação rápida. Em suas linhas podia-se ler a seguinte frase “Nunca existirá ordem no mundo dos valores”.
          Eri-Von voltou a chorar: suas lembranças ainda entorpecidas, tortuosas, manchadas pelo efeito cambaleante do álcool, ainda funcionavam como um dedo vergonhoso apontado para si. O papel em suas mãos reluzia de um modo estranho, e no fundo, dizia mais coisas do que aparentemente se entendia. A culpa sabia, era do DJ Lilás.
          Só quem já experimentara as salsichas achocolatadas de D. Sandra sabia o que era bom. A iguaria era servida com café forte e sem açúcar para o público diverso do Bar Bárbaro, um point multicultural e muito visitado, localizado ao fim da Avenida Presidente Wilson. Seguindo pela calçada do outro lado da Avenida, e tomando as direções: primeira direita, terceira direita, primeira direita, o pedestre chegaria a uma Rua Piña povoada por prostitutas fellinianas, travestis nada sutis e estudantes do Colégio Harpo, aptos a qualquer coisa que lhes fosse permitido desfrutar. Talvez fosse este o motivo de naquela tarde turva de doze de julho, Eri-Von ser o objeto dos olhares flamejantes daqueles olhos vestidos de branco. Era ali mais uma coisa a ser vendida, consumida, um produto a mais naquele grande açougue. Porém Eri-Von não trabalhava na Rua Piña, Eri-Von não se prostituía, Eri-Von nem sabia o que era de fato o corpo de um outro. E talvez fosse por isso que aqueles olhos vestidos de branco, com uma chuteira cara nos pés e mochila verde nas costas, encantaram-lhe o coração. Meio não acreditando ser o desejo daquele estrondoso corpo branco, ajustou os chinelos nos pés, apertou as sacolas de legumes e frios que carregava, e piscou quase imperceptivelmente com o olho direito para aqueles olhos, e imediatamente virou-se para seguir caminho. Atravessou as duas quadras que faltavam para chegar ao seu destino, e resolveu olhar para trás, sabendo que ninguém estaria ali. E olhou. E gritou. Parado a cerca de quarenta centímetros de si, um DJ Lilás de quase dois metros de altura sorria com os dentes manchados de alguma coisa azul, uma visão terrível. Eri-Von tentou correr, mas estava como que plantado no chão, não podia mover-se. O DJ Lilás assobiava um trecho de uma música-febre do momento e balançava a cabeça mole, as mãos soltas, as pernas bambas, e sorria em azul, macabramente, com sons guturais, nasais, uma amplitude de sons horripilantes. E Eri-Von desmaiou.
          O evento do dia doze de julho talvez tenha afetado uma área mágica ou medonha do inconsciente de Eri-Von, pois que desde a fatalidade do desmaio, sempre que entrava na Rua Piña, caminho de seu destino, os mesmos belos olhos vestidos de branco e o DJ Lilás apareciam como uma névoa particular, um espetáculo demoníaco preparado especialmente para alguém que sempre reclamara não ter vivido uma forte ou qualquer uma emoção em seus quase tantos anos de vida.
          A vida, a monotonia. E agora, não só as visões da Rua Piña, mas os pesadelos constantes – o DJ Lilás dançando uma valsa com a sua mãe, comedo à mesa de um orfanato, tirando fotografia de velhinhas – perturbavam Eri-Von cada dia com mais intensidade. Agora portava-se em desalinho, andava a passos caídos para frente, aos tombos, um relaxo. Definhava de medo, temia encontrar o DJ Lilás, os belos olhos vestidos de branco, ou mesmo pessoas brancas. Contudo, o pior momento deste momento insano de sua vida, veio com a “madrugada dos índios hunos”, festa típica do Bar Bárbaro, frequentada por quase todos os alunos do Colégio Harpo e por toda a infernália vivente que habitava até um raio de três quilômetros dali. No dia do evento, com retumbante ânimo, logo após o sol se por, Eri-Von adornou-se com a vestimenta, perfumou-se, muniu-se de uma bela navalha para defesa própria, e feliz, partiu cantarolando a mesma canção que lhe fizera desmaiar, meses atrás, rumo à festa da madrugada. Em pouco, adentrou aos portões do Bar Bárbaro. Era só, entre centenas de pessoas.
          Pouco se importando com os olhares reprovadores dos outros “do outro mundo”, Eri-Von dançou, comeu salsichas achocolatadas, bebeu café, bebeu cerveja, bebeu vinho, bebeu água, bebeu... E não sabia mais o que bebia. Os apaixonantes olhos vestidos de branco ali estavam a oferecer-lhe copos de todas as cores e gostos. O DJ Lilás desaparecera. Os olhos vestidos de branco eram agora a coisa mais real que o houvera tocado. O toque... O turvo. O turbilhão. Eri-Von nada viu de um ponto de hora em diante, havia horas. Pensou estar seguindo caminhos, ruas, ladeiras. O tempo estava quebrado... agora mesmo estava no Bar, mas havia uma lua redonda no céu, mas a previsão do tempo, mais um cão latia de um portão verde... Caiu logo na primeira sarjeta e vomitou salsichas achocolatadas, suco gástrico e muito líquido. Tudo estava estranho... ainda agora refastelava-se no gargalo de uma... Em amargura e confusão, Eri-Von gritou para o vento, xingou Deus e cuspiu amarelo, para a esquerda, com tão pouca força, que o fluído foi cair na manga esquerda de sua camisa agora imunda. Os olhos vestidos de branco estavam ali, parados, sorrindo-lhe. Eri-Von sentiu uma pontada de amor por si mesmo e quase não doeu quando levantou-se e um pequeno rasgo com sangue apareceu em sua coxa. Talvez tivesse rolado pelo chão... não sabia. Fato era que a bela navalha de cabo preto, reluzente, se abrira e cortara-lhe a carne como um castigo por ter sido tão feliz desde a compra de alguns legumes a cerca de três meses. Feliz ou não, Eri-Von desconhecia o que era desde então. Mirou o entorno. As luzes feriam-lhe as retinas, e eram tantas, tão fortes! Sentiu os olhos vestidos de branco sugerir aquela entrada para um beco. Sentiu levantar-se e cair mais uma vez em algumas pequenas poças de água e elevações de barro e areia. Havia obras na região. E havia uma porta naquele beco. E havia um hotel barato com um carpete de cor vinho já um tanto gasto pelo tempo.
          Tudo ainda era um borrão áspero, e sua cabeça era qualquer coisa muito pesada e de colossal tamanho. Eri-Von ainda chorava quando sentou-se no box com o papel rasgado nas mãos. Guardou a navalha no bolso da calça e limpou o nariz na meia marrom que estava dentro dos podres sapatos.
          _ ...ecendo... loguezendo... zo vendo goisas... borra, garalho, zai dagui dsgraza! AAAAAAAAAHHHHHHHH!!! Zaaaaaaaaaaiiiiiiiiiii!
          A barata que se escondera embaixo da cama, assustou-se perdidamente, e teria corrido para qualquer canto, não fosse um gigante DJ Lilás aparecer a cerca de quarenta centímetros de suas antenas, fazendo-a morrer de pânico. Eri-Von gritava ensandecidamente para tentar alcançar algo que não estava mais ali: os belos olhos vestidos de branco desfaziam-se como uma névoa soprada por um bafo sinistro. Uma explicação urgia. Quem lhe havia acompanhado quando saíra do bar? Certamente não pagara a conta, os bolsos ainda retinham os duzentos reais que separara para aquela noite.
          _ ... zu... babel... bundo tos vaoes... vaores dgú éola – e riu-se com gosto de sua torpe observação.
          O papel. Talvez o papel explicasse alguma coisa, ou não explicasse nada. Ou talvez nada precisasse de explicação. Mas Eri-von tentava questionar-se. Não sentia bem o seu corpo, porém umas leves dores tomavam conta de si. Pensou no Dj Lilás, se também era ele a grande sombra que povoava o quarto do hotel. Mas ao mesmo tempo ficou em dúvida, não sabia o que pensar só sentia que de alguma forma, sua vida se tornara um longo e contínuo suicídio.
          A sombra continuava ali, parada, atônita, como que com medo de Eri-von. O DJ Lilás desaparecera atrás da sombra, parecia esconder-se.
          -“EEEEEEEEEEEEEEEEEEEIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII”.
          Eri-Von gritava, mas ninguém atendia. Sua bebedeira, a navalha e o papel rasgado continuavam consigo, como provas de um crime, ou, na pior das hipóteses, evidências da sua própria vida.
          -“Eiii...purgue vse num qué viiiii anguiiiiiiiiinnnn?
A sombra se moveu de forma leve e muito sutil. Demorou um tempo, como se precisasse refletir bem para tomar determinada ação. Depois de muito tempo naquele movimento não completo, a sombra sentenciou:
          - “Ai que preguiça”!
          A tal sombra não queria se mexer e muito menos conversar, queria mais era pensar, refletir sobre algo que lhe incomodava: parecia que queria praticar alguma ação, não se mexia, mas sentia que o tempo de agir era curto. Então, alguma coisa próximo a ela se moveu. A sombra olhou para o lado. Como numa metamorfose, transfigurou-se ali o DJ Lilás, que, paulatinamente, caminhou até Eri-von, que permanecia com o papel na mão.
          Em desespero, Eri-von voltou-se o papel. Aos poucos, com uma breve retomada da visão, começou a entendê-lo de outra forma, e conforme relia, em choque, como se milhares de “eus” lutassem dentro de si para sair, resolveu fazer uso da navalha. Um sentimento de determinação tomou conta de Eri-Von. Era chegada a hora. Seus lábios estremeciam, as lágrimas salgadas os tocavam. E o universo de Eri-Von poluiu-se de dissonâncias, risadas ácidas, o sorriso azul do Dj Lilás, doenças venéreas, pensamentos pútridos, gritos escarrados, alucinações, olhares torpes, estranhos vermes, Oswald de Andrade, manuscritos antigos, idiomas estranhos, Pênis eretos, vaginas que se rasgavam, sangue azul/vermelho/amarelo/rosa choque, céu azul, Georges Bataille, antropofagia, erotismo, Duchamp, tristeza... e o nada absoluto do puro silêncio...
          Eri-von morreu com o corpo levemente jogado para o lado. A navalha ainda quente, jazia jogada no carpete imundo. O corte fora certeiro na garganta, e pouco a pouco, iam saindo da mesma – tomando conta do chão, como quem está dominando o ambiente – pétalas de rosa, murchas, mas ainda muito vermelhas. Eri-Von, morrera.
          O Dj Lilás, observando que tudo estava finalmente acabado, preparou-se para seguir janela afora. Conclamou a sombra para que o acompanhasse, mas esta sentenciou, lânguida e pensativa:
          -“Ai que preguiça”!
          O Dj Lilás recolheu a navalha, e quase imperceptivelmente, atravessou as grades enferrujadas da janela do quarto de hotel. A sombra ficou ali, imóvel, intacta, pensativa, esperando o momento exato em que as cores dissonantes voltariam para a lata de tinta de onde saíam as murchas e vermelhas pétalas.
No bilhete – que agora confundia-se com o emaranhado rubro do tapete – destacavam-se, como se quisessem ser vistas, umas poucas palavras. Palavras que muito significaram para Eri-Von, naqueles últimos momentos:
“Não tente ser o que você é, e sim, procure ser o que não é. Lembre-se que o sonho da Rainha Elizabeth I era se queimar nas frias águas da pjìdàunz mjəmà nàinŋànd̀”¹
          A primeira mosca já pousara na carcaça carmesim, jogada no tapete do quarto de hotel. A sombra sentiu o cheiro forte do café que vinha da cozinha. Amanhecia brandamente. As padarias abriam, jornais eram entregues, chuveiros eram ligados. A sombra deveria sair, perambular. Mas a visão de Eri-Von a possuía amorosamente. Aqueles olhos vestidos de branco finalmente entenderam o motivo de tanta preguiça...  
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¹: Do Birmanês, União de Myanmar – país localizado próximo da China.

PRATICIDADE

          E a dor e o medo convivem. Quando chega a hora, ruídos de dentes rangendo e tremores inoportunos denunciam a culpa. Mas não há culpa. Quando se soube que naquela Era, o solo jamais traria frutos à Nação, todo o possível foi feito para identificar o culpado pela infertilidade. Os culpados são os que buscam a culpa. Eles a sentem, farejam-na com nojo e transferem-na para a situação mais desfavorável no momento. Outras almas aderem ao desrespeito. O ciclo de acusações cresce. Tudo segue a correnteza, arranja-se pequenas ilhas para cultivo, frutos aparecem por todos os lados. Mas no solo infértil, apenas placas, muitas placas com os nomes dos minerais que possui. E indicações de sua longa história, e minas e minas que brotam de seu seio robusto. Todavia, nada satisfaz os espectadores. A única saída é queimar o solo, eliminar sua existência. “Nada daquilo que não segue a linha da produção contemporânea deve viver”. “Exterminemos o inútil”. “O próprio solo deve recusar-se a produzir!”. Milênios de história e milhões de riquezas minerais são anuladas pela vontade cega dos caçadores de igualdade. Em suas portas, um grande cartaz exibe a sentença de suas consciências: “Mais um extermínio do inútil. Quem não se adequa, desestrutura o que tanto sofremos para erguer. Não podemos permitir que se proliferem.”.

NA TEMPESTADE...

          Quando as ondas começaram a ruir com mais força, as velas tremularam com o vento que açoitava a janela da cabana. Uma voz que não se ouvia desde o início do ano, ecoou pelas montanhas. Foi como se o Messias tivesse descido em pessoa e conclamado fiéis para uma nova vida. Toda a comunidade se espremia em torno da cabana na qual tremulava as velas. As crianças choravam, galhos eram arrancados das árvores, os bichos urravam, a aves escondiam-se como podiam. A chuva desabou. Já era tempo do ocupante misterioso explicar o que era aquele aparelho que imitava vozes. 

PEÇAS

por Luiz Santiago e
Kaio Otto Woogman


          O vazio. E a dor daquelas horas cheias da voz mansa que ouvi do pregador. O cansaço. E a chatice de saber que se voltar, haverá o previsto. A mesmice. E o estar farto de dar as mesmas respostas para as mesmas perguntas. A vontade. E a impossibilidade geral de dar cabo aos instintos e desejos mais íntimos. A possibilidade... apesar da dúvida de ter escolhido o atalho certo. As marcas de uma trágica história pontuada por roubos de identidade, palavras e cobranças. O disfarce através da máscara posta em cima do bule que seca a pouca água posta. O enfim de sempre, toda vez que não houver mais nada depois do fim. E as escavações de mais e mais corações e terrenos baldios de experiência para a caça de um afago que só virá de si mesmo ou do Deus que olha e sorri maldoso para as lamúrias injustificáveis da vítima. As traças que se agarram ao casaco surrado do último inverno. As balas para o ataque futuro. A esperança morta nos braços. O enterro da misericórdia. Um retrato do pai preso ao capacete enferrujado. O amuleto tatuado no braço. A prece antes de abrir a porta. O susto conhecido de cada novo trovão. Um toque súbito na nuca, alguns passos, o fim. E a história pode ser que nem tenha começado.

O MEDO

          Um pequeno e assustado verme que se esgueira por entre as portas da realidade e que vai, sorrateiro, para os olhos, e toma toda a carne, e traz frio, e some por entre os poros enregelados. No âmago do Ser, o pequeno verme assustado estabelece-se confortavelmente e dorme. A única certeza de dentro, é a de que aquilo que se vê e sente é verdade. Por fora, a certeza é a própria dúvida de aquilo que se vê ser verdade ou não.

MITOS, PRISÕES

por Luiz Santiago e
Kaio Otto Woogman

          Quase em silêncio, a ave que eu soltei à noite fez morada sobre um galho retorcido. E foi tal a beleza da construção, que cubri-a de vidro e visgo e a alimentei com luzes e cheiros e minhocas frescas. Mas a ave voou e não voltou, farta de tanto pompa. A fausta casa e seus adornos, jazem como testemunha de que ali houve um dia alguém vivo. Eu fotografo cada espaço e mostro para estranhos arquitetos a obra da antiga prisioneira. Me torno um jovem descobridor de talentos alados, sou uma espécie de Deus da ornitologia contemporânea, uma autoridade da biologia com um pé na arte da existência e na psicologia dos seres. Recebo ofertas de corpos e línguas, moedas e comidas. A casa da antiga ave, ainda firme, resiste aos visitantes que teimam em tocá-la. Sou a primeira testemunha do nascimento de um santuário. Em ganas de fama e aplausos, decido e sei o que fazer. Rearmo antigas gaiolas e penso em comprar outras, muitas outras. Passo a ser um grande carcereiro e adestrador de aves. Um bruxo que aprisiona, solta, e vive do resultado da dor de quem fugiu. Uma nova atividade desponta em meu currículo. Me apraz produzir mitos.

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