DE CÁ
21:44
Kaio Otto
O conteúdo: a importância. Vemos o que acompanha a cara que se nos apresenta. As roupas, o perfume, o saber. Tudo certo, ok. Ninguém - ou poucas pessoas - gosta de lidar com uma palmeira ou uma porta em forma de gente. Mas um cuidado urge: não fazer das exigências conteudistas algo sem o qual não se tem nem a palavra, o ouvir, o render-se ao inesperado. Não há nada pior do que o desprezo. De cá, do meu quarto em Arles, penso em cosias que me incomodam. Essa, é uma delas. Entendam como quiser.
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DE SI OU OUTROS EUS
14:48
Kaio Otto
Estar perdido é tatear às cegas pela Metrópole, e isso fazemos todos os dias. Ninguém nunca se achou completamente. O nosso meio não nos permite isso. Nós não nos permitimos. Parece uma maldição, mas o ser humano está condenado à dúvida eterna sobre si mesmo, e infelizmente, às frustrações de não poder lidar tranquilamente com o pouco que conhece. Por isso mesmo, todos estão perdidos em si, todos estão perdidos no mundo. A centelha de alegria e confiança vem quando agarramos uma oportunidade ou pegamos na mão de alguém. Não é eterno, não sara todas as feridas, mas é confortante. Até que o encanto se quebra e tudo volta à estaca zero. Nem nisso conseguimos nos firmar. A sede do novo, mesmo para os mais pacatos seres é um motor-pulsão que garante a vida. Do contrário, não nos aventuraríamos. Penso que é justamente o fato de não saber muito sobre as coisas que nos impulsiona para o Mar Aberto. E lá estamos nós, perdidos, no mundo perdido, no espaço perdido, à procura de emoções e tranquilidade desconhecidas. Quando será diferente?
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A PERA SEM EIRA NEM BEIRA
17:35
Kaio Otto
Kaio Otto Woogman e Luiz Santiago
Não procure no mapa e nem pergunte a seus pais onde fica a Terra Azul. Já não existe mais a Terra Azul. Onde um dia estivera este fantástico lugar, havia ontem um grande buraco roxo, povoado por almas feias e tristes. Mas nem sempre fora assim. Quando os dinossauros comiam tudo o que havia na Terra, havia na Terra Azul uma linda e gigantesca plantação de peras. Era a mais bela e cheirosa plantação de peras que o Ser Supremo já fizera aparecer. Não se podia contar os grandes exemplares das frutas que ali moravam, todas muito bem acomodadas. Suas raízes confortavelmente fixas na terra, faziam-na felizes, e durante muito tempo, naquela plantação viva (imagine uma pera gigante sorrindo e acenando para você), não se ouviu reclamação alguma.
Pera Pereira tinha apenas oito anos de terra. Suas folhinhas verdes cintilavam o orvalho da manhã, e sua cor quase branca, de tão verde, se perdia entre as muitas pintinhas marrons que lhe malhavam a casca.
_ Como eu detesto esse lugar! - Reclamava Pera Pereira para os amigos da Escola Estadual Fazenda Estufa Feliz. - Eu queria sair dessa Fazenda, ir para o outro lado da Terra Azul, ver os monstros do mar, os pássaros de asas roxas e os tigres de dente de sabre...
Pera Prada, sua namoradinha, choramingava:
_ Mas você não pode ir para além da Terra Azul! Aqui temos tudo o que precisamos. E estamos salvos de todos os monstros que possam nos fazer mal. Aqui, estamos seguros, Pera Pereira.
_ Você tem medo de grandes aventuras – respondeu Pera Pereira, as folhas do caule sacudindo-se em um acesso de raiva vegetal – Não posso entender como alguém pode ter medo de algo que nunca viu!
Todos os alunos da Escola Estadual Fazenda Estufa Feliz olharam Pera Pereira, como se ele, algum dia, houvesse visto um monstro do mar ou um pássaro de asas roxas.
_ O que vocês estão olhando? - Disse ele irritado, as raízes agitando-se nervosamente – Parece que eu sou o único que percebe o quanto nós somos...
Sabe, crianças, nenhum adulto conta a verdade sobre tudo. Não sabemos ao certo o motivo, mas eles acabam escondendo coisas que nos ajudaria muito a entender essa bagunça toda que é o mundo. Uma das grandes não-verdades é sobre a criação do mundo. Na verdade, o Ser Supremo criou tudo isso aqui em três dias, mas descansou apenas no oitavo. O tempo que sobre nesse espaço todo, foi preenchido com a criação da Terra Azul. Ele (quero dizer, o Ser Supremo), pensou pensou em tudo o que habitaria aquela terra, que tipo de sorvete teria, quem seriam os professores das escolas, quem vigiaria a grande plantação de peras. Como podem ver, deu mais trabalho que inventar todos os tipos de bichos e plantas. Na Terra Azul, tudo era verde e verdejava sob um lindo céu vermelho que enfeitava a atmosfera prateada ao redor. Um riozinho azul marinho corri mansinho pelos espinhos das rosas. Todo o conforto necessário para uma simples pera ali estava: boa água, terra fértil e farta, cores largas. A Terra Azul era o Paraíso. Talvez por isso foi preciso cercá-la. Para proteger da invasão de quem, não se sabe. Algumas peras, no início da empreitada, insatisfeitas com nada, resolveram fugir, descobrir os mundos para além da Terra Azul. Conta-se na Fazenda Estuda Feliz, que elas nunca mais voltaram. O medo do Ser Supremo era que todas as frutas se aventurasse, e, muito, muito rápido, desaparecessem no espaço grande que existia além do grandioso portão da propriedade.
Mas, naquela tarde vermelha, na Terra Azul, os amigos de Pera Pereira presenciaram a primeira partida de um coleguinha para o Mundo Pardo, o lugar para onde vão as peras sem eira nem beira.
Quando Pera Pereira disse (lembre-se que ele estava irritado, e agitava as raízes nervosamente) “O que vocês estão olhando? Parece que eu sou o único que percebe o quanto nós somos...” ele simplesmente desapareceu. Nem raiz, nem caule, nem cor. Nada. Apenas ouviu-se uma potente voz, que vinha de algum lugar da macieira-selvagem:
_ Não repitam o erro de vosso amigo. Sejam felizes dentro da cerca. Não há nada lá fora.
Mas é que não dava mais para ser feliz dentro da cerca. Não demorou muito, algumas peras começaram a desaparecer. Nas horas seguintes ao sumiço de Pera Pereira, alguns Perafessores também desapareceram. E desapareceu o rio. E mais peras desapareceram, e mais peras, e a roseira, e os espinheiros...
Não se sabe quem começou a rebeldia,mas foi o fim da Terra Azul em poucos dias. Dizem que foi uma certa pera sem eira nem beira quem enfureceu o dono da feira, da plantação distinta. O que podemos supor que aconteceu, vem de uma pintura perrestre encontrada na Caverna da Fazenda Estufa Feliz. Ali, em vivo verde, vê-se um tigre de dente de sabre devorando um pássaro de asas roxas, à beira de um lago vivaz. Acredita-se que os caracteres escritos ao pé da pintura queiram dizer: Pera Pereira.
Ontem, a Terra Azul era um vácuo cheio de vazio de lágrimas. Ela desapareceu tanto, que fez desaparecer a invisível fronteira que tinha como Mundo Pardo.
Hoje, em tudo ao redor, há um grande buraco roxo habitado por muitas almas feias e tristes.
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UMA HISTÓRIA DE ERI-VON
14:29
Kaio Otto
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PRATICIDADE
21:04
Kaio Otto
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NA TEMPESTADE...
20:51
Kaio Otto
PEÇAS
22:19
Kaio Otto
O vazio. E a dor daquelas horas cheias da voz mansa que ouvi do pregador. O cansaço. E a chatice de saber que se voltar, haverá o previsto. A mesmice. E o estar farto de dar as mesmas respostas para as mesmas perguntas. A vontade. E a impossibilidade geral de dar cabo aos instintos e desejos mais íntimos. A possibilidade... apesar da dúvida de ter escolhido o atalho certo. As marcas de uma trágica história pontuada por roubos de identidade, palavras e cobranças. O disfarce através da máscara posta em cima do bule que seca a pouca água posta. O enfim de sempre, toda vez que não houver mais nada depois do fim. E as escavações de mais e mais corações e terrenos baldios de experiência para a caça de um afago que só virá de si mesmo ou do Deus que olha e sorri maldoso para as lamúrias injustificáveis da vítima. As traças que se agarram ao casaco surrado do último inverno. As balas para o ataque futuro. A esperança morta nos braços. O enterro da misericórdia. Um retrato do pai preso ao capacete enferrujado. O amuleto tatuado no braço. A prece antes de abrir a porta. O susto conhecido de cada novo trovão. Um toque súbito na nuca, alguns passos, o fim. E a história pode ser que nem tenha começado.
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O MEDO
20:38
Kaio Otto
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MITOS, PRISÕES
19:09
Kaio Otto
Quase em silêncio, a ave que eu soltei à noite fez morada sobre um galho retorcido. E foi tal a beleza da construção, que cubri-a de vidro e visgo e a alimentei com luzes e cheiros e minhocas frescas. Mas a ave voou e não voltou, farta de tanto pompa. A fausta casa e seus adornos, jazem como testemunha de que ali houve um dia alguém vivo. Eu fotografo cada espaço e mostro para estranhos arquitetos a obra da antiga prisioneira. Me torno um jovem descobridor de talentos alados, sou uma espécie de Deus da ornitologia contemporânea, uma autoridade da biologia com um pé na arte da existência e na psicologia dos seres. Recebo ofertas de corpos e línguas, moedas e comidas. A casa da antiga ave, ainda firme, resiste aos visitantes que teimam em tocá-la. Sou a primeira testemunha do nascimento de um santuário. Em ganas de fama e aplausos, decido e sei o que fazer. Rearmo antigas gaiolas e penso em comprar outras, muitas outras. Passo a ser um grande carcereiro e adestrador de aves. Um bruxo que aprisiona, solta, e vive do resultado da dor de quem fugiu. Uma nova atividade desponta em meu currículo. Me apraz produzir mitos.
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