PEÇAS

por Luiz Santiago e
Kaio Otto Woogman


          O vazio. E a dor daquelas horas cheias da voz mansa que ouvi do pregador. O cansaço. E a chatice de saber que se voltar, haverá o previsto. A mesmice. E o estar farto de dar as mesmas respostas para as mesmas perguntas. A vontade. E a impossibilidade geral de dar cabo aos instintos e desejos mais íntimos. A possibilidade... apesar da dúvida de ter escolhido o atalho certo. As marcas de uma trágica história pontuada por roubos de identidade, palavras e cobranças. O disfarce através da máscara posta em cima do bule que seca a pouca água posta. O enfim de sempre, toda vez que não houver mais nada depois do fim. E as escavações de mais e mais corações e terrenos baldios de experiência para a caça de um afago que só virá de si mesmo ou do Deus que olha e sorri maldoso para as lamúrias injustificáveis da vítima. As traças que se agarram ao casaco surrado do último inverno. As balas para o ataque futuro. A esperança morta nos braços. O enterro da misericórdia. Um retrato do pai preso ao capacete enferrujado. O amuleto tatuado no braço. A prece antes de abrir a porta. O susto conhecido de cada novo trovão. Um toque súbito na nuca, alguns passos, o fim. E a história pode ser que nem tenha começado.

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