por Luiz Santiago e
Kaio Otto Woogman
Quase em silêncio, a ave que eu soltei à noite fez morada sobre um galho retorcido. E foi tal a beleza da construção, que cubri-a de vidro e visgo e a alimentei com luzes e cheiros e minhocas frescas. Mas a ave voou e não voltou, farta de tanto pompa. A fausta casa e seus adornos, jazem como testemunha de que ali houve um dia alguém vivo. Eu fotografo cada espaço e mostro para estranhos arquitetos a obra da antiga prisioneira. Me torno um jovem descobridor de talentos alados, sou uma espécie de Deus da ornitologia contemporânea, uma autoridade da biologia com um pé na arte da existência e na psicologia dos seres. Recebo ofertas de corpos e línguas, moedas e comidas. A casa da antiga ave, ainda firme, resiste aos visitantes que teimam em tocá-la. Sou a primeira testemunha do nascimento de um santuário. Em ganas de fama e aplausos, decido e sei o que fazer. Rearmo antigas gaiolas e penso em comprar outras, muitas outras. Passo a ser um grande carcereiro e adestrador de aves. Um bruxo que aprisiona, solta, e vive do resultado da dor de quem fugiu. Uma nova atividade desponta em meu currículo. Me apraz produzir mitos.


19:09
Kaio Otto
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