PRATICIDADE

          E a dor e o medo convivem. Quando chega a hora, ruídos de dentes rangendo e tremores inoportunos denunciam a culpa. Mas não há culpa. Quando se soube que naquela Era, o solo jamais traria frutos à Nação, todo o possível foi feito para identificar o culpado pela infertilidade. Os culpados são os que buscam a culpa. Eles a sentem, farejam-na com nojo e transferem-na para a situação mais desfavorável no momento. Outras almas aderem ao desrespeito. O ciclo de acusações cresce. Tudo segue a correnteza, arranja-se pequenas ilhas para cultivo, frutos aparecem por todos os lados. Mas no solo infértil, apenas placas, muitas placas com os nomes dos minerais que possui. E indicações de sua longa história, e minas e minas que brotam de seu seio robusto. Todavia, nada satisfaz os espectadores. A única saída é queimar o solo, eliminar sua existência. “Nada daquilo que não segue a linha da produção contemporânea deve viver”. “Exterminemos o inútil”. “O próprio solo deve recusar-se a produzir!”. Milênios de história e milhões de riquezas minerais são anuladas pela vontade cega dos caçadores de igualdade. Em suas portas, um grande cartaz exibe a sentença de suas consciências: “Mais um extermínio do inútil. Quem não se adequa, desestrutura o que tanto sofremos para erguer. Não podemos permitir que se proliferem.”.

NA TEMPESTADE...

          Quando as ondas começaram a ruir com mais força, as velas tremularam com o vento que açoitava a janela da cabana. Uma voz que não se ouvia desde o início do ano, ecoou pelas montanhas. Foi como se o Messias tivesse descido em pessoa e conclamado fiéis para uma nova vida. Toda a comunidade se espremia em torno da cabana na qual tremulava as velas. As crianças choravam, galhos eram arrancados das árvores, os bichos urravam, a aves escondiam-se como podiam. A chuva desabou. Já era tempo do ocupante misterioso explicar o que era aquele aparelho que imitava vozes. 

PEÇAS

por Luiz Santiago e
Kaio Otto Woogman


          O vazio. E a dor daquelas horas cheias da voz mansa que ouvi do pregador. O cansaço. E a chatice de saber que se voltar, haverá o previsto. A mesmice. E o estar farto de dar as mesmas respostas para as mesmas perguntas. A vontade. E a impossibilidade geral de dar cabo aos instintos e desejos mais íntimos. A possibilidade... apesar da dúvida de ter escolhido o atalho certo. As marcas de uma trágica história pontuada por roubos de identidade, palavras e cobranças. O disfarce através da máscara posta em cima do bule que seca a pouca água posta. O enfim de sempre, toda vez que não houver mais nada depois do fim. E as escavações de mais e mais corações e terrenos baldios de experiência para a caça de um afago que só virá de si mesmo ou do Deus que olha e sorri maldoso para as lamúrias injustificáveis da vítima. As traças que se agarram ao casaco surrado do último inverno. As balas para o ataque futuro. A esperança morta nos braços. O enterro da misericórdia. Um retrato do pai preso ao capacete enferrujado. O amuleto tatuado no braço. A prece antes de abrir a porta. O susto conhecido de cada novo trovão. Um toque súbito na nuca, alguns passos, o fim. E a história pode ser que nem tenha começado.

O MEDO

          Um pequeno e assustado verme que se esgueira por entre as portas da realidade e que vai, sorrateiro, para os olhos, e toma toda a carne, e traz frio, e some por entre os poros enregelados. No âmago do Ser, o pequeno verme assustado estabelece-se confortavelmente e dorme. A única certeza de dentro, é a de que aquilo que se vê e sente é verdade. Por fora, a certeza é a própria dúvida de aquilo que se vê ser verdade ou não.

MITOS, PRISÕES

por Luiz Santiago e
Kaio Otto Woogman

          Quase em silêncio, a ave que eu soltei à noite fez morada sobre um galho retorcido. E foi tal a beleza da construção, que cubri-a de vidro e visgo e a alimentei com luzes e cheiros e minhocas frescas. Mas a ave voou e não voltou, farta de tanto pompa. A fausta casa e seus adornos, jazem como testemunha de que ali houve um dia alguém vivo. Eu fotografo cada espaço e mostro para estranhos arquitetos a obra da antiga prisioneira. Me torno um jovem descobridor de talentos alados, sou uma espécie de Deus da ornitologia contemporânea, uma autoridade da biologia com um pé na arte da existência e na psicologia dos seres. Recebo ofertas de corpos e línguas, moedas e comidas. A casa da antiga ave, ainda firme, resiste aos visitantes que teimam em tocá-la. Sou a primeira testemunha do nascimento de um santuário. Em ganas de fama e aplausos, decido e sei o que fazer. Rearmo antigas gaiolas e penso em comprar outras, muitas outras. Passo a ser um grande carcereiro e adestrador de aves. Um bruxo que aprisiona, solta, e vive do resultado da dor de quem fugiu. Uma nova atividade desponta em meu currículo. Me apraz produzir mitos.

APARÊNCIAS

          Sempre piso na mesma poça: quando não devo querer, quero, e me atrevo a verbalizar, incontido que sou. O pior é que sofro com o gélido resultado das coisas. Quando se espera ânimo, alegria, riso, euforia, um frio e banal prato me é servido como que por obrigação. Não foi assim que eu imaginei a cena. Não foi assim que me indicaram que seria. Mas é a té bom que seja tudo diferente. Mesmo sabendo das surpresas que existem do nascimento à morte, essas mais duras revelam algo que estão para além da vida cotidiana, ou algo que não se pode ver, medir ou tocar. A alma se revela. E se vê a lama.

REPRODUÇÕES

          O que é um artista? Artista é aquela pessoa que cria algo NOVO, ORIGINAL, a partir de elementos primários. Logo, todo aquele que copia, embora faça muito bem e com cores até mais reluzentes que o original, é apenas um copista, um aproveitador (e que reclama para si o posto de “melhorador”) da Arte alheia.
          Hoje, vejo pulular “criações” por aí. Paga paus de quinta categoria proliferam como um vírus infeccioso. Corremos o risco de um dia, atravessarmos a rua de um jeito engraçado, e aquilo virar moda nacional, tendo como criador A Tiazinha de Tal.
          Nós já temos o azar de vivermos no pós- tudo de bom. E me chame de saudosista retrógrado quem quiser. É raro, nos tempos 3D, surgir um verdadeiro ARTISTA. Seja em que campo for. E isso é mau. Ainda mais se entendermos a arte como aquela coisa que livra homem da barbárie.

COMEÇO DE CONVERSA

          Depois de tanto tempo, me rendi ao mundo digital, eis aqui o espaço para as minhas ideias.
Não pretendo salvar ou piorar o mundo. Não pretendo altas façanhas. Quero apenas poder escrever algumas linhas sobre a vida, sempre que for possível.
No fim, não quero é nada. O que vier é lucro.

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